quarta-feira, dezembro 12, 2007
Não aguento mais!
terça-feira, dezembro 11, 2007
Amadurecendo
Na adolescência, no bojo dos questionamentos a tudo e as crises existenciais, há sim (inevitável citar isso) as ilusões inocentes em mudar o mundo - mas sobretudo, questionamentos quanto ao que realmente queremos para nossas vidas em relação à trabalho e relacionamento amoroso; e interesse em questões importantes para a sociedade como um todo - a "dor dos outros" (Susan Sontag)... Especialmente, e para alguns, a chegada da adolescência coincide com a formação de uma visão crítica que muito faz falta à sociedade em geral - ainda que seja uma visão crítica em relação a assuntos prosaicos, como sobre a vida de uma amigo qualquer ou sobre a vida de um parente. Por mais prosaico que possa parecer, a visão crítica de um contamina o outro que contamina o outro e assim por diante.
Mas é curioso notar como esse senso crítico às vezes dá lugar ao conformismo e à leniência. E ver alguns agora se comportarem como consumistas acéfalos focados apenas no trabalho para mais acumular e gastar em shopping centers e carros e motos e mansões estilo "clean" brancas de piso frio e linda paisagem - com seus cachorros de quem mais gostam do que seus próprios filhos! Ops.
Sim, amadurecer é bom, mas emburrecer...
quarta-feira, dezembro 05, 2007
Philip Roth
Nunca havia me identificado tanto com um autor - e talvez muitos dos homens da minha geração se identificam ou se identificariam com ele. Sua narrativa é simples e sofisticada, e em alguns de seus livros ele trata de questões velhas num contexto contemporâneo (como a obsessão sexual potencializada pela ditadura dos corpos perfeitos e pela liberação sexual) com muita inteligência e ironia. Seus personagens são escravos da carne mas não são autômatos boçais e psicóticos; não estão percorrendo o submundo no encalço de qualquer mulher que surgir à sua frente. São pessoas normais com suas fantasias, angústias e ressentimentos.
2 personagens principais dos 3 livros que li, são publicitários bem sucedidos vivendo sob a mesma contemporaneidade em que vivemos, e isto quer dizer tudo o que vocês sabem muito bem. Um deles está no ocaso da vida, após 3 casamentos, 3 filhos e um caso com sua enfermeira, e ao mesmo tempo em que passa em revista os mais marcantes fatos de sua existência, no presente se depara e enfrenta a chegada da velhice e a iminência da morte. Um homem que sacrificou um relacionamento sólido e maduro em nome do êxtase da carne, vê-se agora diante da finitude e o perecimento dos corpos...
Ah, falar de nós, Philip Roth sabe falar como ninguém.
terça-feira, novembro 27, 2007
Retomando
Há uma semana tenho um computador em casa - no trabalho não consigo escrever, pois lá é onde toda a minha ansiedade e insegurança alcançam seus mais altos níveis - e isso coincidiu com o retorno da indignação.
Mas só indignação não basta para escrever... E eu não consigo captar a essência dessa mistureba de materialismo, consumismo, cinismo, imaturidade, arrogância, falta de envolvimento, etc... Pois é disso que queria escrever, pois são essas coisas que passam por minha cabeça ao deitar na cama para dormir - é disso que tenho paixão em discutir.
Relendo a série de contos que escrevi há 3 anos atrás, percebo que trato das "Estórias brutas e curtas de uma sociedade decadente" com moralismo, de lá de meu lugar, num andar superior; e obviamente, para sentir aquela sensação de conforto quando diminuímos os outros. Ainda que perceba tudo isso, e tentando novamente, procurando por uma nova chance, não consigo escrever sobre a tal "sociedade decadente" sem que tudo pareça moralista.
Se é assim, melhor escrever sobre minha própria racionalização solitária e inútil...
Para quem chegou até aqui: -Foi mal!
terça-feira, agosto 28, 2007
Aniversário que já passou
“As pessoas não apenas têm a impressão de que as possibilidades de encontrar satisfação na vida são infinitas, como também são encorajadas a ser uma espécie de inventoras de si mesmas, isto é, elas são supostamente livres para escolherem quem querem ser. Mas, nessa sociedade altamente individualizada, que prioriza as liberdades individuais sobre as causas de um grupo, o indivíduo enfrenta um ansioso e provocante dilema: Quem eu sou para mim mesmo?” Renata Salecl em “Sobre a felicidade: ansiedade e consumo na era do hipercapitalismo".
terça-feira, junho 26, 2007
quarta-feira, junho 20, 2007
O Texto para o Blog foi roubado, e os textos sobre os roubos ficaram
Acontece que meu notebook não está mais comigo. Está nas mãos daqueles que renderam minha noiva e entraram na minha casa para nos roubar.
Reviraram tudo, e passaram batido diante de centenas de livros - um deles um livro de contos de Rubem Fonseca, especialmente de contos que prenunciaram essa onda de violência que estamos vivendo - passaram batido diante de textos que falavam deles.
Eles ali, a situação em curso, e as histórias ...
P.S.: No próximo post, tentarei refletir mais sobre essa situação que muitos de nós vivenciamos e vivenciaremos.
segunda-feira, junho 11, 2007
Esperança
Cabe muito bem a nós, que estamos cheios de esperança.
"A esperança não passa de um charlatão que não pára de nos enganar; e, para mim, a felicidade só teve início no momento em que a perdi. De boa vontade eu colocaria na porta do Paraíso os versos que Dante colocou na do Inferno: Lasciate ogni Speranza, voi ch'entrate (Deixai toda esperança, vós que entrais)."
sexta-feira, maio 25, 2007
No que estamos pensando?
Tony Judt, um historiador inglês, inicia seu artigo falando da decisiva explosão demográfica ocorrida nos pós-guerra e da inédita quantidade de estudantes que havia na Europa, e segue apontando, entre outras coisas, a evolução da teoria marxista e da convergência dos estudantes e o proletariado. Entre a reinvidicações dos trabalhadores, o choque cultural de gerações, a própria teoria marxista, a empolgação com as revoluções nos continentes asiático e americanos, a “santificação” das figuras de Mao e Che Guevara, e os movimentos de oposição à guerra do Vietnã, resta a vontade desses dois grupos socias tão diferentes, a elite estudantil e o proletariado, de mudança, especialmente do modus vivendi, do estilo de vida – uma mudança mais conceitual do que prática, o que talvez tenha sido determinante para que, como afirma o historiador, os contemporâneos desses anos tenham supervalorizado esse período.
Bom, tracei essas poucas linhas para chegar aqui, agora ...
Não temos teorias em grande evidência – a não ser que algum maluco venha a elaborar uma mixórdia dos livros de auto-ajuda e a chame de teoria – não temos ícones revolucionários a adorar. Não, não ache que este é Mais um... (sic) texto saudosista, inocente exaltador da geração anterior e autômato proferidor de maledicências do presente desencantador.
No que os jovens de hoje estariam a pensar?
Aparentemente, estariam eles preocupados com suas carreiras num mercado tão competitivo, numa “era dos executivos”, e quando não estivessem trabalhando, estariam andando pelos “shoppingui centers” da vida, comprando celulares que são Palm Tops, ou são Palms tops que são celulares?
Um panorama nada promissor, não acha? Bom, pelo menos a imensa maioria dos nossos contemporâneos pensa que sim: estamos indo pra merda – exatamente o oposto dos jovens dos anos 60, que acreditavam estar fundando um novo estilo de vida.
Não sei se é bem assim, nem se é bem assado.
sexta-feira, maio 04, 2007
Uma poesia
sentido.
A barriga, que empurra
a vida.
Há desejos, pulsões e desejos
em tudo.
A compra; e não há
satisfação
possível,
há dor.
supérflua,
mas primeira, visceral.
quinta-feira, abril 26, 2007
Escrita de si
para lhe ser franco é o primeiro blog que visito. O que é fascinante nesse espaço virtual é a possibilidade daquilo que Foucault nomeou como escrita de si. Parece-me que isso vc faz com estilo. Um abraço e boas férias."
Admito que pesquisei sobre o conceito da escrita de si, de Foucalt, e não entendi muita coisa. Alguém poderia me ajudar?
De onde vem essa onda?
Desde o início da adolescência cometi pequenos poemas, projetos de romance e outros textos sem forma. Com um pouco mais de 20 anos, cometi uma série de contos que intitulei: “Estórias brutas e curtas de uma sociedade decadente”. Do título ainda gosto. Encaminhei para várias pessoas, obviamente, em busca de elogios, ainda que eu acreditasse que críticas seriam “bem vindas”.
Entre interessados idiotas e afins, havia aqueles perspicazes e um deles teceu comentários que muito me marcaram, e ainda hoje procuro entendê-los, e compreender minha reação à eles. Dizia, entre outras coisas, que meus textos eram como carros superpotentes acelerando numa pequena garagem. Havia sim, muito esforço, muita força para nada.
Uma outra analogia me vem à cabeça: Um cantor que se esforça, solta a voz, mas não vence a mediocridade de seu talento. Não?
Ora, cabe aqui ao leitor aborrecido um aviso: Escrevo este texto exclusivamente para mim.
Também me ocorre que me preocupo demais com o que pensam ou esperam de mim. Será por isso a“ força”, a insistência em escrever – para que me admirem?
Não sou cínico o suficiente para escrever coisas do tipo: “Escrever para mim é como respirar” ou “Escrever é minha terapia”.
Hoje não sinto mais tanta revolta. Eu passava dias, ou melhor, meses, revoltado com o comportamento dos outros, sua ignorância, hipocrisia, egoísmo, modismos, etc... Eu gritava, jurava que me vingaria de todos eles através da arte – mal sabia que não havia arte.
quinta-feira, março 22, 2007
Maria Antonieta
Depois veio "Encontros e Desencontros" com suas sutilezas profundamente humanas.
E agora, a estória da jovem princesa austríaca que foi enviada para casar-se com o futuro rei da França, e que acabaram sendo decapitados pelos revolucionários de 1879.
Sofia mistura um visual de filme de época com edição moderna, música clássica com rock contemporâneo, para nos mostrar a face humana desta rainha cercada de lendas, especialmente a de que, diante dos miséráveis enfomeados exigindo pão, mandou-lhes que comessem brioches, expondo ao ridículo a alienação em que vivia. Claro, Maria Antonieta era acusada de viver uma vida de luxos exorbitantes numa época em que o reinado estava em crise, e o império caminhava para a ruína. A mistura de elementos clássicos, a fotografia, a música, causam um efeito interessante e a face humana de Antonieta se revela, da mesma forma que os jovens milionários das grandes metrópoles que caem numa balada sem fim também são seres humanos frágeis, críticos às vezes e desprezíveis noutras.
Não é um filme qualquer...
segunda-feira, março 12, 2007
Chapeuzinho Vermelho na Linha Amarela
Passado já algum tempo, não temos a solução para o caso da Linha 4 do Metrô de São Paulo e nem os culpados de tal desastre. Como tudo no Brasil, os problemas não se resolvem e, ainda mais, são postergados até que o povo se esqueça. E como mero observador preocupado com a justiça de nosso país, arrisco dar um palpite sobre tal tragédia.
Sabe de quem é a culpa do acidente? É claro, a culpa é do contrato. Parece brincadeira, mas sim, a culpa é de um maço de papéis. Lógico que papel não fala, não ouve, mas carrega conteúdo. Conteúdo de suma importância para as partes envolvidas.
A engenharia brasileira, bem reconhecida no mercado globalizado, busca a atualização para se manter competitiva neste segmento. E nada melhor do que copiar e seguir modelos e paradigmas do primeiro mundo. Contratos de preço global “turn key”, modelos EPC “Engineer, Procurement & Construction” para gestão de projetos que consiste na total coordenação das atividades em empreendimentos como elaboração de projetos, construção, fiscalização, sistemas construtivos e de qualidade, ou seja, tudo mesmo é operacionalizado por quem apresenta o menor preço nas licitações. Não é de se estranhar que tudo é muito lindo e claro na teoria, mas será que funciona no nosso Brasil?
Para quem não sabe, obras grandiosas com esse mesmo tipo de contrato também apresentaram sérios problemas como Hidrelétrica de Campos Novos – SC e Complexo Energético Rio das Antas (CERAN) – RS, mas não houve divulgação pois não houveram vítimas fatais. Que hipocrisia, não?!!!
Costumo comparar este problema a outro exemplo determinante em nossa trajetória política. Nossa querida e amada “Democracia”, importada também de nossos primos ricos. Será que o Brasil está ou já esteve algum dia preparado para tal “Democracia”?
Como um povo, em sua quase totalidade analfabeta, consegue opinar alguma coisa ou escolher seus representantes políticos, se estes não têm interesse na evolução e desenvolvimento cultural de seu povo? Não existe interesse para investimentos na Educação, pois se a população estivesse preparada e educada, não escolheria os mesmos para representá-la.
Seguir exemplos e modelos que deram certo, nem sempre são as melhores soluções. Como na lenda de Chapeuzinho Vermelho, ir pelo menor caminho nem sempre significa seguir pelo caminho mais seguro.
terça-feira, fevereiro 27, 2007
Big Brother
segunda-feira, fevereiro 12, 2007
Escrevo para que?
É verdade que se sente um orgasmo quando uma idéia - com suas sutilezas e nuances, repleta de fragmentos de outras idéias - toma corpo em palavras escritas. Mas não sei explicar a origem desse orgasmo.
quinta-feira, fevereiro 08, 2007
Meus caros
Meus caros, vivemos sim a era da pós-utopia, e não sei o que virá em seguida...
Minha geração não chegou a sonhar com os ideais socialistas, pois antes mesmo de criarmos nossas convicções, o muro de Berlim já havia caído e o fracasso dos regimes comunistas já estava exposto ao mundo, ainda que alguns, especialmemente aqui no Brasil, orgulhosamente se negassem a enxergar o fracasso de um regime, como o pai preconceituoso se nega a perceber a homossexualidade do filho.
Minha geração surgiu num mundo já desencantado. Até mesmo a adolescência, fase marcada pelos idealismos, passou mergulhada em delírios e revoltas de boutique, regados a drogas e orgias vãs.
Sei que já confundi minhas frustrações com a decadência que nos cerca, e olhei para tudo sob as lentes de meu ressentimento, blasfemando todos os seres humanos, símbolos e mitos num niilismo covarde. Outros, não menos covardes, apoiam-se em crenças apocalípticas ou se concentram no capitalismo mais selvagem.
Embora eu possa separar minha legítima indignação da minha covardia diante da vida, continuo praguejando e afirmando a podridão do status quo, gerador de seres dia a dia mais egoístas e desencantados, ou talvez, mais desencantados e depois egoístas...
A política em nosso país dispensa maiores comentários, aliás, até nos países desenvolvidos vemos governos desastrosos, e qualquer alternativa já nasce ridicularizada, tanto o desencantamento que nos tomou os corações. Eu que sempre adorei futebol, e não porque seja Corinthiano (sic), vejo um futebol medíocre jogado nos gramados do mundo inteiro, sem graça, sem emoção no mais emocionante dos esportes.
As artes tornaram-se coisas impossíveis: “Se tudo é arte, nada é arte”.
A economia encontrou-se no maior dos paradoxos: há de crescer para se sustentar, e para se sustentar há que excluir. Ela cresce a cada dia, e a cada dia há mais exluídos da própria economia, e se a maioria dela não participa, não é uma legítima economia.
Não duvidem: minha ousadia toca ainda outras áreas. A medicina. Que médicos especialistas são esses? Será que ainda não perceberam que seu objeto de estudo é um ser orgânico, palavra que remete a organizado, e portanto, interligado?
O jornalismo, ah, esse, coitado, tão desvalorizado.
Quem mais posso praguejar? Eu mesmo? Sim, posso praguejar a mim mesmo, mas isso posso deixar para a terapia.
E como não falar em desilusão? Como não falar em sentimento de “cada um por si”, não se preocupar apenas com nosso conforto desconfortável?
quarta-feira, janeiro 31, 2007
Vidente do amor
Não pude deixar de ficar matutando nisso.
Primeiro que meus conhecimentos místicos dizem que vidente é aquele que tem a capacidade de prever o futuro, possui a mediunidade de vislumbrar acontecimentos antes mesmo de tornarem-se fatos. Acontece que o tal anúncio sugere que a nossa vidente fará com que a pessoa desejada se apaixone pelo seu cliente, e isso não é vidência, e sim, (como devo chamar?) mandinga, bruxaria, simpatia. Devo aconselhá-la a atualizar seu anúncio. Talvez: “Simpatia do amor”, “Bruxa do Amor”ou até mesmo, “Mandingueira do amor”.
Mas o melhor de tudo é que o pagamento está condicionado aos resultados. Como assim? O cliente (mal amado) assina uma promissória que tem o pagamento condicionado à conquista do fulano de tal, RG n˚ tal, endereço tal? Ou a vidente confia tanto em seus poderes, a ponto de que seus clientes voltarão felizes ao seu consultório (como é o nome do local em que a vidente atende?) com o cheque na mão e o sorriso de satisfação no rosto? Óbvio, com seus poderes mediúnicos ela enxergará o que está acontecendo realmente e então cobrará seus clientes. Ou será que a explicação está em seu anúncio? Como ela é uma vidente do amor, ela faz antes a simpatia e logo em seguida uma previsão dos resultados, e em caso de previsão de sucesso o cliente realiza o pagamento? Ora, não deixa de ser um pagamento após o resultado, já que seus poderes lhe permitem que possa trazer os resultados futuros para o presente.
Pensando melhor, fico com a opção de que a tal vidente, ou melhor, a mandingueira, estabelece uma exemplar relação de confiança com seus clintes, e obviamente, autoconfiança em seus poderes, que não deixa de ser uma lição para nós, desconfiados.
quarta-feira, janeiro 24, 2007
Não tenho nada para dizer...
suspeitinha
terça-feira, janeiro 16, 2007
Modernidade e cidadania (breve reflexão sem juízo)
quinta-feira, dezembro 14, 2006
FÉRIAS
Agradeço a todos aqueles que aqui entraram e continuam entrando...
quarta-feira, dezembro 06, 2006
Encontro
Mas nem tudo é só ansiedade. Há encontros nessa vida. E, especialmente nessa nossa vida, os encontros podem se multiplicar com a internet, por exemplo. Mas falo aqui do encontro com o outro que nos toca (eu, ou você e o outro) naquilo que nos faz seres humanos – encontro raro, mas que não se qualifica pela intensidade (como diz uma poesia de um gigante que todo mundo adora colocar no profile do orkut). É um encontro que pode ser o mais singelo, mas que nos revela mais: nós mesmos.
terça-feira, novembro 28, 2006
Palpites do Mestre Palpiteiro em: Nós e nossas crianças
Um estudo realizado pelo canal infantil Nickelodeon revelou que as crianças brasileiras são as mais estressadas do mundo, e sentem-se inseguras inclusive em relação a assuntos, digamos, muito mais distante de nós, brasileiros, como o medo de desastres naturais e da gripe do frango, no qual superaram as crianças chinesas que conviveram com a epidemia. Vi, sim, na revista Veja, baah, mas isso é papo para outra hora.
O estresse das nossas crianças tem origem no comportamento dos adultos, obviamente, e esse é aqui o meu alvo. O que esse estudo revela? O que nós adultos estamos fazendo para deixar nossas crianças assim tão estressadas? Se considerarmos que as crianças absorvem facilmente os estímulos dos adultos, porque nós, brasileiros, estamos deixando nossos problemas chegarem até as crianças?
A psicóloga citada na Veja elenca dois principais motivos para explicar o estresse das crianças brasileiras: o clima de catástrofe que se instalou no país, com os telejornais e outros programas televisivos dando mais ênfase para tragédias do que para aspectos positivos, por exemplo.
Até aqui tudo bem, entretanto, permitam-me a pretensão, gostaria de adicionar a perguntinha basiquinha: - Por que os brasileiros criaram todo esse clima de tragédia, considerando que a Indonésia, para ficar num exemplo fácil, viveu há pouco tempo uma tragédia de proporções muito mais graves do que qualquer tragédia viviva na história nacional? E aqui me lembro de uma: a perda da copa do mundo de 1950 para o Uruguai.
O brasileiro tem maior inclinação para a catástrofe? Se considerarmos o alarde que se fez nos dias dos ataques do PCC, quando explosões de rojões causaram corre-corre no centro de diversas cidades, e havia mais de 100 ônibus queimando quando na verdade havia 1 na cidade vizinha, chegaremos à seguinte conclusão: Sim o brasileiro tem inclinação para a catástrofe.
Nos sentimos mais inseguros simplesmente porque não conseguimos diferenciar o que realmente nos importa, o que realmente ameaça nosso bem estar. Por que nossas crianças se preocupam mais com a Aids do que as crianças africanas, onde a contaminação é infinitamente maior? Não sabemos diferenciar o que realmente nos ameaça, sentindo exatamente que tudo nos ameaça, talvez porque nos preocupemos mais com o porvir do que com o agora. Talvez nossa histórica “malandragem” nos faz querer prever problemas para, atevendo-os, poder dar um “jeitinho” e nos safar incólumes de tudo, e o resultado é esse: preocupação!
Outro motivo elencado pela psicóloga foi o fenômeno do alargamento da adolescência, que termina mais tarde, mas que, principalmente, começa mais cedo, tirando nossas crianças precocemente daquela inocência e ilusão que tanto caracterizam a infância. Para reforçar este argumento, eu não citaria a exposição excessiva das criancas ao mundo adulto, pois não creio que as crianças inglesas e americanas, por exemplo, sejam menos expostas ao nosso mundo.
E, mais uma vez “pedantemente”, pergunto: Por que nossas criancas entram mais cedo na adolescência, vulgo, emburrescência? Será que é porque valorizamos demais aspectos que só podem ser desfrutados por adultos, como o dinheiro ou a beleza e seu poder de massagear o ego, especialmente as meninas que querem ser logo classificadas como gostosas? Desta forma, a criança quer logo entrar no mundo adulto para também poder desfrutar dessas e outras coisas.
Bom, como Mestre Palpiteiro, permito-me mais um palpite: A superproteção que os pais dispensam aos filhos, fazendo a lição de casa para eles, não os permitindo dormir na casa do amiguinho, entre outras, faz com que se sintam mais e mais inseguros em relação à vida em geral. Mais um motivo.
O problema não está com as crianças ou com a maior ou menor exposição aos nossos problemas, e sim com nós adultos e nosso comportamento que, obviamente, afeta e sempre afetará nossas crianças.
segunda-feira, novembro 13, 2006
Mais um... desenganado
Talvez você desconfie que, iniciando um texto deste modo, eu seja um anti-capitalista, um socialista desenganado da vida depois que o Muro de Berlim caiu e a podridão do regime soviético ficou exposta para todo o mundo, ou após a frustração sofrida com o governo Lula.
Nada disso.
Então talvez você esteja desconfiado de que eu seja um hippie fora de época, um neo-hippie ou um adepto dessas pseudo-religiões que impregnaram muitas e muitas mentes.
Para não dizer que você nem mesmo chegou perto, confesso que de desenganado eu tenho um pouco, mas um desenganado crônico, desses desenganados congênitos que já nasceram reclamando, e que a realidade não frustrou em lhes oferecer inúmeros motivos para reforçar seu “desenganamento”, ainda mais assistindo a esta crise economo-político-ético-socio-antropo-ludopédica.
Ora veja, um país dividido por um abismo social que faz as classes média e alta tão ignorantes da realidade da periferia como a rainha francesa que teria sugerido brioches aos esfomeados que imploravam por pão – imaginem só se não estivéssemos na era da informação? Um país que apresenta um dos maiores números de cirurgias plásticas e uma das menores rendas per capita - só pode ter algum parafuso fora de lugar.
Não se tratam de monstros materialistas que pisam na cabeça dos pobres nas ruas (embora alguns cheguem perto disso, pois nem sequer cumprimentam o motorista do táxi ou a faxineira do prédio).
Não alimento uma visão maniqueísta do mundo. Sei que, atualmente, de consumista compulsivo ou exagerado materialista todo mundo tem um pouco (essa é para aqueles que odeiam as generalizações).
Entretanto, há dias em que a indignação me faz esquecer das minhas próprias torpezas, das minhas próprias contradições, e uma visão crítica e até neurótica se apodera de mim, mostrando-me o absurdo e o cinismo em que vivemos, absurdo que ganha matizes mais fortes nesses dias desencantados.
O homem contemporâneo é o homem que perdeu a inocência. Dificilmente nos sensibilizamos com uma notícia, mesmo com as instantâneas notícias da televisão ou da internet. Nada mais nos afeta, nada mais nos dá esperança. Vivemos por uma individualidade que dia a dia se enlouquece num jogo em que abundam ferramentas, mas que nos escapou o sentido.
Como escreveu Daniel Piza em um texto sobre os sentidos do romantismo: “Em kafka, por exemplo, é justamente por precisar tanto de esperança que o ser humano mata a esperança”. Então, agora, certamente em Kafka o ser humano, depois de ter matado a esperança, agonizaria num mundo pós-utópico.
Tenho a terrível sensação de que vivemos um erro; o ser humano é como aquele que simplesmente não deveria estar mais ali, um jogador num jogo de cartas, que mesmo após ter sido derrotado insiste em permanecer jogando.
Não disse que se tratava de um desenganado crônico?
quarta-feira, novembro 08, 2006
O prazer em ler os clássicos
O livro de Proust certamente exige um esforço maior do leitor, com seus períodos intermináveis e exaustivos, uma maratona de palavras em estilo rigosamemente construído, que obriga o leitor a voltar inúmeras vezes para bem compreender o sentido pretendido pelo autor.
Proust renega o realismo e nos mergulha num turbilhão de análises psicológicas e enlaces subjetivos, não se confundindo com o fluxo de consciência característico de Virginia Woolf. Mal analisando, Proust nos revela a consciência dos personagens mais em ações do que em pensamentos, enquanto Virginia Woolf, ao contrário, nos revela mais em pensamentos do que em ações.
Voltando ao mote propriamente dito deste texto, tentarei transmitir a você, leitor – missão quase impossível e por isso mesmo arriscadíssima – o prazer em ler as obras literárias em geral, e mais especificamente, os grandes clássicos da literatura mundial.
A fruição de uma obra de arte e a leitura de um livro como “Em busca do Tempo Perdido” e suas minuciosas descrições de lugares, coisas e pessoas, que ao leitor desavisado podem parecer enfadonhas, nos faz viajar dentro de nós mesmos, em identificações insuspeitas e profundas, que nos surpreendem no instante mesmo em que as estamos fruindo, de modo muitas vezes incompreensíveis, intraduzíveis, aliás, inconscientes na maioria das vezes, não nos permitindo sequer poder explicar o fascínio que nos provocam.
Ler nos permite conhecer o outro na plenitude de seu ser, desnudo, destituído dos grilhões que a sociabilização nos submete, o autor focado no mais profundo de sua individualidade, e de tal modo focado no individual e subjetivo, que acaba por se conectar com o que tem de coletivo e universal.
Ler é conversar com pessoas de outras épocas, de outras culturas. É viajar parado como nos prometem os mais fascinantes delírios. E ler os clássicos é empreender as maiores viagens nos mais loucos delírios, guiados pelos maiores Mestres da técnica de transportar espíritos.
Para não ficar apenas em argumentos sutis e coquetes, digo mais: especialmente em dias em que a imbecilidade e a escassez de conteúdo predominam nas ruas, ler os clássicos é uma raríssima oportunidade de se comunicar com pessoas inteligentes, que fogem ao senso comum e nos presenteiam com pérolas de raciocínios, sensibilidades e experiências.
quarta-feira, novembro 01, 2006
Votando em 29 de outubro de 2006
Não se trata daquele que não se interessa, que diz ter nojo de política. Também não se trata de apontar o dedo para as mazelas do sistema político. Não faltará quem o faça. Não se trata daquele jovem que busca uma “idealogia para viver”. Dessas já não fazemos idéia. Não há ideologia possível onde não há consciência do “coletivo”. Também não se trata daquele que defende a anarquia, pois nossos governos são desgovernos e nossa “ordem” já é uma desordem.
Saí de casa mais para realizar atividades banais como ir à padaria ou alugar um filme. Entrei no colégio como quem faz um passeio que guarda um sabor mais por encontrar pessoas com as quais normalmente não se cruza. Na fila da minha seção, encontrei um ex-vizinho dos tempos da infância, e conversamos sobre muitas coisas, não de política. Estávamos ali como quem cumpre mais uma obrigação, não um direito.
Um presidente se elege, mas não há com o que sonhar, pelo que lutar. Não há quem defenda princípios ou esboce qualquer reação ao status quo. Um partido há de sair derrotado, mas não há um projeto político derrotado. Não há projeto político num mundo em que não há mais motivos para a vida em comum.
Alguns ficam satisfeitos com o resultado da eleição, mas não ficam felizes – não há perspectiva de felicidade. Outros se dizem revoltados, e deixam claro que as palavras perderam mesmo o sentido. Os conceitos esvaziaram-se.
Voltei para minha casa, mas não estava interessado no desempenho de meu candidato. Liguei a televisão, e o assunto era eleição. Que eleição? Mais políticos discursando, mais análises...
sexta-feira, outubro 20, 2006
O boteco da esquina
Admito também que acabei parando num boteco - muito ou pouco - decerto influenciado por essa “moda” dos botecos. Não é de ontem que eles têm sido frequentados por jovens, digamos, mais favorecidos; o que demonstrou que os botecos ganharam doses de glamour.
Por causa disto ou daquilo, o que interessa nessas mal traçadas é o fato de que afinal acabei sentando numa mesa de boteco. Que me desculpem os bares-não-botecos, os botecos são divertidíssimos.
O brasileiro se auto-denomina, com orgulho, como um povo heterogêneo, de grande miscigenação e diversidade cultural, e portanto, sem preconceitos. A realidade nos mostra que as coisas não são bem assim. No entanto, sentado num boteco, pensei: admitindo a possibilidade da sociedade brasileira como heterogênea, estar sentado num boteco é o primeiro ato de diversificação cultural. É o ato ideal de toda essa diversidade anunciada, pois, onde mais se imagina que se possam encontrar os sujeitos das diversas classes sociais, separados por nossas cidades partidas? Onde mais podemos conviver com o outro senão no boteco da esquina?
A despeito dessas e outras idéias que surgiram, uma noite me marcou mais que todas, não pelos pensamentos que me propiciaram, mas sim pela emoção que vivi. Eis que surgiu um violão na mão de um botequeiro de uns 60 anos, que tinha o apoio vocal de um negro desses de quem se diz, negão, somada a voz de um botequeiro calvo de uns 35 anos, desses que se curva “jeitoso” em direção ao violeiro.
Estou certo de que não se tratava de um trio de talentosos músicos, mas uma alegria tão genuína tomou conta do boteco que a música era embalada pelos sorrisos e estes pela música.
Uns pediam samba, outros Djavan, e o violeiro só sabia modas de viola, e a moda de viola embalava o bar de forma precária, é verdade, mas a sinceridade da emoção do trio nos embalava em emoções que nos ensinam que ser humano no século XXI é ter que brincar em casa quando criança, ter contas para pagar na maturidade; e apesar de tudo, emocionar-se no mais prosaico dos botecos de esquina.
quarta-feira, outubro 11, 2006
Palpites do Mestre Palpiteiro, Doutor em Pescoçar
A depressão é hoje uma epidemia.
De qualquer maneira, ao olhar nos olhos de muitas das pessoas, no trabalho ou em qualquer outro lugar, o que não é o caso de minha casa (estou morando “quase” sozinho), me deparo diante de olhos fugidios, ou em outros casos, sob um olhar de arrogância e felicidade ostensiva, revela-se um ser em pânico, especialmente nos pequenos silêncios que o deprimido almeja em evitar.
Uma frente de fatos que me reforçam tal convicção é baseada no encontro com pessoas as quais revelam quaisquer traços de depressão ou pânico; sendo que a outra frente de fatos talvez não seja tão óbvia como a primeira, mas que igualmente pode fazer sentido.
É verdade que a rotina e o modus pensandis das pessoas não lhes dá tempo para meditarem acerca de suas vidas, e consequentemente, questionarem a vida que estão levando.
A segunda frente dos fatos me vem da constatação de que vivemos um período de grande individualismo, ao ponto de as pessoas optarem por não terem filhos, simplesmente porque não podem suportar a idéia de terem que abdicar de algumas condições em favor da atenção que devem aos filhos, atenção esta, aliás, exigida em nossa legislação.
Ora, uma vida que se sustenta unicamente na obtenção de mais vantagens, confortos e prazeres para si mesma, em algum momento não fechará a conta, simplesmente porque tais necessidades jamais se satisfarão.
Não estou tratando de simples tristeza, de um desânimo passageiro ou da agridoce melancolia; esta é dorzinha que acaba por nos revelar um fogo brando, que arde ardidinho e faz da vida uma comunhão com a beleza.
É o que observo por aí. Ainda que eu não seja psicólgo, psicanalista e muito menos psiquiatra.
quinta-feira, setembro 28, 2006
Para comer e conversar... não basta só começar!
Não é de hoje que encontro com pessoas que adoram conversar, mas adoram tanto, que a conversa logo se transforma em um monólogo narcisista. Aliás, não se engane, são seletivos com sua platéia; não é para qualquer um que eles desejam vomitar sua verborragia... há os escolhidos para presenciar o espetáculo.
O pior é que o narcisista patológico (que me perdoem os psicólogos, estou eu também metido a diagnosticar patologias psicológicas) acaba por não conhecer o outro, pois ele não ouve a opinião dos outros e não conhece o paladar dos outros, pois quando o outro ia começar a falar, as cortinas se fecharam.
A frase também citada no referido blog: “livre das úlceras que vêm da preocupação com uma dieta balanceada”, de A.J. Liebling, também é pertinente para a questão, já que hoje presenciamos um verdadeiro império da vida saudável. É a típica frase que eu gostaria de ter escrito.
quarta-feira, setembro 27, 2006
quinta-feira, setembro 21, 2006
A Trepada da Cicarelli
Duas pessoas transando numa praia?
sexta-feira, setembro 15, 2006
Vida aos pedaços (conto)
Era um crepúsculo chuvoso de segunda-feira, no mês de setembro de 2023.
Sentado em frente à tela multimídia assistindo televisão, pés ao ar, Guilherme revelava em lampejos esparsos risos silenciosos, exatamente da maneira como o faz somente nos momentos em que se encontra sozinho, e há que se dizer, na maioria das vezes ele se encontra sozinho.
No canal de televisão passa um programa de entrevistas que está arrebentando recordes de audiência. Os entrevistados, pessoas comuns, relatam experiências quaisquer de suas vidas anônimas, subitamente galvanizadas de renome fugaz. São entrevistas que duram dez minutos, e dezenas de pessoas são entrevistadas diariamente.
A convidada de hoje chama-se Fernanda, que, timidamente, inicia o depoimento relatando trivialidades de sua vida. A entrevistadora, com seu “sorriso permanente” e destilando um certo embaraço, pede à garota algo “mais interessante”, segundo suas palavras.
A timidez perde espaço para a empolgação e as palavras parecem mais leves em sua boca, e no intuito de atender ao pedido da entrevistadora, Fernanda relata agora suas viagens ao redor do mundo. Enquanto fala, seus lábios formam um longo e sôfrego sorriso, claramente rejubilando-se com aquele aguardado momento.
Eis que surgem os comerciais obrigatórios. E no menu interativo - perfil de interesses de Guilherme: informática, eletrônicos, viagens virtuais, meios de tranporte e mulheres sensuais: “Viaje para onde quiser, sem sair de casa. Visite as cordilheiras do Himalaia, as pirâmides do Egito nos tempos dos faraós. Presencie, às margens do Ipiranga, a proclamação da república”.
Guilherme havia acabado de encerrar a última reunião do dia, via conferência multimídia. É funcionário de uma empresa fabricante de sistemas biométricos para identificação de íris, utilizados em portarias, portões eletrônicos, centrais multimídias, automóveis, contas bancárias. Tecnologia útil para toda e qualquer personalização de acesso, seja ele físico ou virtual.
Lá fora, as ruas sem pedestres, sem carros. Nelas sobraram apenas os mentecaptos, loucos, vadias, vadios, párias, gatos estropiados, aventurando-se por entre a cidade sem vida, excluídos do convívio digital.
Aciona pelo comando de voz o noticiário e logo aparecem em sua tela corpos de crianças mutilados por um psicopata qualquer. Guilherme as observa com olhos de familiaridade. Em seguida, as últimas notícias do torneio de tênis de Madri, os resultados dos jogos de futebol de todo o mundo, as atrações do final de semana em Nova York.
Os peixes no aquário nadam freneticamente numa busca incessante pelas dimensões mais distantes do aquário. As bolhas de ar emergem na superfície e se dissolvem em súbitas explosões como num manifesto de emoções afogadas.
No céu estrelado, estrelas cadentes entregam-se resignadamente aos seus destinos e constróem uma paisagem essencial. Aqui na terra, destinos humanos cruzam-se e comunicam suas solidões mudas.
Guilherme agora joga videogame e vive ali uma vida inteira. Decide o destino frio daqueles personagens, inúmeros personagens entre tramas frenéticas e despedaçadas. Entrega suas emoções ao controle do videogame: morre, atira, mata, vence, explode, perde, vive. Decisões a cada milésimo de segundo, em aventuras por entre os mais inóspitos lugares e tempos variados. Entre as ruas de Londres, entre o subúrbio da Colômbia, entre as modernas ruas de Pequim.
O botão desliga aquela vida virtual e o repouso lhe chama de algum lugar, mas Guilherme não consegue dormir. Liga a tela e confere a imensa lista de amigos, alguns estão ainda acordados, mas não se sente à vontade para lhes falar de seus tormentos. Sente-os distantes, muito distantes, como se as distâncias tivessem aumentado estupidamente.
Liga a televisão novamente, mas nenhum canal lhe chama a atenção. Como num déjà vu total, tem a sensação de que já havia vivido tudo o que lhe afigura diante dos olhos, condenado a ver as mesmas coisas infinitamente, e desta vez, Guilherme sente medo. Medo do desencantamento, da extinção da razão de existir. Como se alguém pudesse encontrar alguma em absoluto.
FIM
sexta-feira, setembro 08, 2006
Impressões àqueles que se impressionam (divagações)
Queria lhes contar de uma febre. Não uma febre física, mas uma febre que atordoa a percepção, e nos faz perceber tudo diferente, como quando estamos mergulhados em uma paixão avassaladora, ou quando fomos arrebatados por uma forte emoção, tão alegre ou tão trágica que nem sabemos ao certo como reagir.
No conforto do sofá, num dia em que, repentinamente, o sol quente e o calor deram lugar ao vento frio, já tarde da noite, após ter assistido no cinema (e isso muito importa para um filme de visual tão alucinante) Miami Vice.
Trata-se de cinema de temática e orçamento da grande indústria, absolutamente, com seus astros do mainstream, distribuição maciça, e roupagem de blockbuster. Não há dúvida. Mas há algo nesse filme que me manchou a percepção das coisas, como se minha visão estivesse submetida a um filtro interior, que ritmasse meu fluxo de consciência de forma incomum. Tudo isso vem fortalecer a crença de que a arte é algo que nos atinge em nossa essência de seres humanos civilizados e embebidos culturalmente.
Vejam bem; não me interessam thrillers com suas tomadas espetaculares de carrões em alta velocidade e suas cenas exageradamente vertiginosas de ação. Embora Miami Vice tenha esses ingredientes, seus personagens sofrem e expressam emoções que nos amparam da dor existencial. Talvez nos identificamos com suas dores diante do absurdo da existência (que Camus tão bem expressou). Nos identificamos com algo que nos fere, é a dor dele que nos dói, mas que afinal nos revela a beleza e nos faz sorrir muito intimamente. Aquilo que só uma febre como a da experiência artística nos faz experimentar...
quarta-feira, agosto 30, 2006
Tempo de crise
Eu poderia citar os mais diversos argumentos para defender minha autonomia, inclusive é pungente minha indepedência em relação ao autor, uma vez que o elo primordial do ato somente se consuma com o leitor. Digo mais: ambos, autor e leitor, assumem papéis igualmente essenciais, ainda que, em dias tão individualistas, o leitor tenha passado por dias difíceis, sentindo-se inferior e inseguro diante de tantos holofotes jogados em cima do autor.
Há quem diga que meu despertar auto-consciente somente se tenha dado a fim de que eu possa, digamos, colocar as coisas em seus devidos lugares. Mas deixarei por ora essa questão de lado, haja vista que eu me sinto forçado, antes de mais nada, a defender minha própria condição. E antes que eu prossiga em minha defesa, tenho que admitir que isso tudo encerra, ao menos para mim, uma questão inabrandável: Meu grito existencial não seria o ato individualista por excelência?
Você leitor, terá que chegar à sua própria conclusão.
De qualquer maneira, eis minha defesa: Um texto literário, penso Eu-Texto, é uma forma de comunicação com você leitor, que estabelece um vínculo profundo, pois esse vínculo é também constituído por sua própria consciência que confere à mim peculiaridades de sua natureza. Eu e você formamos uma simbiose indissociável de nossas individualidades.
Não me venham meus concorrentes, quais sejam quaisquer outros objetos que possam ser apreendidos por seu conhecimento, me acusar de auto-promocão e de arrogância. A televisão, obviamente que também enquanto é apreendida por você, carrega os traços de sua personalidade, entretanto, é tudo muito mais acabado, e a facilidade que primeiramente possa te cativar, acaba por limitar seu poder de imaginação.
Fui longe demais, dirão alguns.
Com a minha experiência, que tenho tratado esses anos todos com os mais diversos homens, escritores e leitores, eu diria que, ainda que hajam outras formas de comunicacão – verbalizada, visualizada, ouvida, e outras que misturam os dois anteriores, os três ao mesmo tempo – eu estabeleça relações mais intelectualizadas.
Sou também mais democrático, atendo aos pobres, aos ricos, aos hipócritas, aos justos, aos mentirosos, aos ditadores, enfim, a todos aqueles que pensam, pois mesmo os analfabetos podem ser autores de mim, basta que alguém escreva as palavras ditadas.
Para aqueles que estejam jogando baixo comigo, pensando em termos artísticos, nas outras formas de arte; uma vez me escreveu Hegel de mim:
“ ... a Plástica é o signo do Espírito. Ela exprime a vida criadora, mas paralisada pelo tempo e pelo espaço. A música, ao contrário, revela-nos diretamente o movimento íntimo da alma, com seus desejos e sentimentos eternos e sua aspiração ao infinito. A poesia, finalmente, é a Música plástica. Ela pinta e esculpe por meio de frases dotadas de mobilidade e por sons que se sucedem, harmoniosamente ritmados. Ela é a arte suprema e exprime o pensamento por imagens.”
Se você me achar um pouco maçante, perdoe-me, é que senti uma irresistível vontade de falar de mim... pois desde que me descobri enquanto tal, tenho sentido uma certa angústia indefinida por palavras escritas.
quarta-feira, agosto 23, 2006
Prólogo do livro inexistente
Esclareço que não deixo de assumir muitos dos traços - que a princípio possam parecer repugnantes – dos personagens que ganham vida nas páginas deste livro. Digo a princípio, pois são traços que almejam a beleza da imperfeição humana, que assumem sem temor seu caráter eminentemente humano, como diz o título nietzschiano: “Humano, demasiado Humano”.
Não nego também um desejo de desestabilizar, pois um ser - seja ele uma sociedade, ou, ainda, uma única pessoa – somente quando se vê envolto em inúmeros questionamentos, arrisca-se nos tormentos da evolução.
De maneira alguma alimento uma visão utópica da sociedade, ocorre que nossa essência é constituída de um impulso que nos impele a buscar incessantemente a evolução. É como se vivêssemos o amadurecimento do gênio da espécie: transpostos os obstáculos materiais (ou pelo menos, aparelhados de inumeráveis ferramentas para isso), enfrentamos agora os obstáculos do espírito.
Nos deparamos diante de uma terrível epidemia depressiva. Infindáveis patologias da psique são diagnosticadas a cada dia, e os jovens (e aqui me incluo) nunca consumiram tanta droga como nos dias de hoje. É evidente que nesse ponto os arroubos imediatistas e a era do consumismo colaboraram para o alastramento desta busca frenética por prazer imediato.
Há muito se diz que vivemos a era da pós-utopia. Somos a geração perdida num caos atemporal, desprovida de padrões, minada por uma terrível ofensiva de informações e sufocada por uma ansiedade que entorpece lentamente, como o cigarro que intoxica dia-a-dia o fumante.
Não se trata aqui da sentença emitida por aquele que, de seu plano superior e orientado por nobres valores, aponta as deformidades do outro, para um lugar fixo. Não! O personagem Carlos, do conto “A silhueta de Narciso”, que inclusive, no mais não passa de uma estória repleta de clichês, é a mais simplória imagem da vaidade do intelectual revoltado e ferido por uma sociedade que primeiro negou-lhe seus prazeres, e depois negou-lhe os valores que ele aprendeu a valorizar, à custa daquela primeira negação.
Independente de qualquer mesquinhez, convido-o, leitor, a refletir comigo acerca de comportamentos típicos da atualidade. Talvez eu tenha cometido equívocos, exageros, ou tenha me deixado levar por algum ressentimento de alguma de minhas frustações. É provável! Apesar de tudo, sei que tudo isto servirá de algo, pois os livros, todos eles, sempre servem.
A publicação deste livro jamais pretendeu salvar nada nem ninguém. É apenas o reflexo de minhas frustações e devaneios, e então, uma centelha da luz que forma a imagem nesse espelho crítico em que a sociedade se reconhece.
Afinal, o livro inexistente é aquele que contêm em si, potencialmente, todos aqueles livros que poderiam ter sidos escritos.
O livro que teria esse prólogo, nasceu e morreu em minha imaginação, ele existiu enquanto minha abstração. Eis as idéias!
quarta-feira, agosto 16, 2006
Quem é você?
São tantas as possibilidades e as opções, tantos os estilos de vida ofertados, tantas as máscaras que usar e tantos os modelos em que se encaixar. Você, certamente, se interessa pelos mais variados assuntos e temas. E isto, de uma forma que não saberia explicar, lhe causa sensações opostas de angústia e euforia.
Hoje, por exemplo, qual o assunto que procura? O que está buscando? Notícias de lugares longínquos, de cidades da região, vizinhas, de outros planetas?
Talvez esteja interessado nos resultados dos jogos do final de semana. Uma receita de Chowder de Mariscos da Nova Inglaterra? Hum, sei. Está sim procurando, o que dizem os ensinamentos do Feng Shui, sobre a posição certa de colocar a cama e o espelho em relação à porta de seu quarto, e o efeito das cores das paredes sobre nossa saúde.
Talvez queira notícias sobre a queda da Nasdaq, o valor do Kwanza em relação ao dólar e a taxa de natalidade em Luanda. Poderíamos falar da safra da soja, da produção de girassóis em Holambra, da incipiente produção de biodiesel como combustível alternativo.
E se você for um velho senil, apenas interessado no valor do banho-tosa para o seu fiel companheiro? Aí talvez você também esteja interessado no destino dos seus sobrinhos-netos, filhos daquela sua paixão da juventude que sua avó proibiu por ter o inexorável defeito de ser seu primo de primeiro grau.
Desconfio que você seja um dentista procurando um curso de aperfeiçoamento em Cirurgia e Traumatologia Buco-maxilo-facial. Desculpe, a essa hora você não está procurando nada que tenha a ver com sua profissão, quer apenas se distrair com qualquer porcaria como esta.
Pode ser que você esteja passeando pela europa, no melhor estilo mochilão, tenha parado num cyber café, se conectado ao “messenger”, todo animado para conversar com seus amigos que ficaram, contar da noite passada.
Pode ainda ser que você seja o amigo que não foi viajar, pois não tinha tempo, muito menos dinheiro, ficou aqui para trabalhar, ainda mais agora que você se apaixonou pela recepcionista. Há uma possibilidade, e a isso ninguém pode se contrapor, de que você seja o patrão deste último, porque é certo de que se ele ficou trabalhando é porque tem um patrão, e esse pode ser você, que está navegando pela internet, depois de mais uma discussão com aquele sócio com quem você tanto se empolgou no começo da sociedade, e que agora parece ser a pessoa no universo com a qual você menos tem afinidades, tanto profissionais como pessoais.
Talvez seja um dia chuvoso, e por qualquer motivo, ainda que o próprio fato de estar chovendo seja o motivo mais óbvio, não sabe bem por que não sente a mínima vontade de sair de casa.
Está procurando ler qualquer coisa mesmo, qualquer coisa que te sirva, não no sentido de utilidade prática, mas que te sirva nem que seja apenas no exato momento em que está lendo.
Está à procura de fotos de mulheres nuas, óbvio demais para uma pessoa tão interessante como você. Óbvio demais até para ser considerada uma tentativa, minimamente interessante. Desculpa!
quinta-feira, agosto 10, 2006
É a lama, é a lama!
Se antes sabíamos que corrupção existia, hoje ela é declarada, e pior, nem ao menos nos sentimos em condições de criticá-la. Não se enganem: o corrupto não é um monstro que olha no espelho e diz: - Hoje vou desviar verba das ambulâncias, foder a vida de milhares de enfermos, deixá-los na mão, pois não estou nem me lixando para todo esse "povo" que vive na lama. Estou preocupado é com meu bolso. Otários!
Não é assim! Ele é como eu ou VOCÊ, quando você deu aquele golpe na seguradora de seu carro, como quando arrumou aquele bom emprego no serviço público para um amigo (mas que era um bom profissional), quando comprou aquele toca-fitas roubado, etc... Tudo isso, lógico, porque não dá para sobreviver de outra maneira. Somos todos corruptos!
Tragédia dos Comuns: o que eu faço, tem uma mínima repercussão, mas todos pensando assim, vira essa merda em que estamos metidos!
Vivemos o sentimento de: "cada um por si". E cada um usa das armas de que dispõe. O PCC é reflexo de anos de descaso de todos nós com a desigualdade e situação social. O governador Lembo jogou a culpa em cima da classe média que trata mal seus empregados. A elite intelectual do país, leia-se, artistas, jornalistas e outros, criticaram mordazmente tal afirmação. Vejo nessa afirmação dois lados. Se por um lado é verdade que o governador demonstrou mais uma vez nossa mania de jogar a culpa das mazelas nos outros, e ainda, excluiu a culpa dos próprios desfavorecidos, por outro lado, parece-me, ao menos, um indício de que a classe média começa, timidamente, a realizar a saudável auto-crítica. Marcelo Tas, em seu blog, acusou o governador de hipócrita. Se admite sua culpa, é hipócrita, se nega, é arrogante. Suspeito que haja outras cores a pintar a realidade que não somente o preto e o branco.
Diante do descaso de uns, arrogância de outros, visão achatada de muitos, difícil vislumbrar uma solução. É a lama, é a lama!
segunda-feira, agosto 07, 2006
Poesia? Que nada!
Observe estas palavras gastas: Eu sou! Não sei se as acho... ridículas ou magníficas...
Quem pode me dizer, quem sou? Então, do que me importa... o que eu não sou?
Chega! Chega de hipocrisia, de sonhos juvenis, de teorias econômicas, de ideologias políticas, de dialética marxista, de psicodelias tardias... à merda com a consciência ambiental!
Às vezes, andando por aí, observando pessoas, milhares delas caminhando eretas, olhar fixo no horizonte, homens de três bocas, mulheres de seis peitos... algumas falando... falando... falando sem parar.. . passa pela minha cabeça, que ainda que estejam caminhando... sorrindo... comprando... trabalhando... transando... fodem como a galinha que se move em espasmos sem vida!
E os celulares então! Tocando... tocando... em todos os lugares... nos carros em trânsito... nas igrejas em júbilo... à toa nos bares... na cabeceira da cama ao lado onde dois corpos ardem... não servem para comunicar!
À merda com os produtos light, diet, os leites desnatados...
Quero distância dos sucos de abacaxi com hortelã, das academias de robôs, de yoga de manhã...
À merda com os sem-terra, Che-Guevara, Almodóvar... vinhos californianos...seriados americanos, à merda!
Niilismo? Será o niilismo uma teoria ou uma atitude?
Ah, à merda com as teorias também.
Ah, e já ia me esquecendo... à merda também com estas letras mal escritas!
