sábado, outubro 24, 2009

Shock

Engraçado - escuto por aí que não se faz mais música como algumas décadas atrás. Ao mesmo tempo penso em como na era da abundância e do hedonismo elogios se tornaram... sei lá, algo fácil demais e focado nos prazeres mais mundanos. É o auge do prazer! Me acho até ridículo com desejo de elogiar alguma coisa.


Foda-se! Essa mulher é demais:





Há coisas que são: o-que-não-tem-nome - e delas gostaria de me ocupar!

quinta-feira, outubro 08, 2009

Mais umas impressões...

Um surto de pânico é um refluxo de preocupações!

Ah, vejo as pessoas preocupadas (e aqui me incluo) com o futuro – com tudo! Preocupadaspreocupadaspreocupadaspreocupadas. Pensando freneticamente como imagens de um videoclip qualquer. O comercial da tevê invadindo as intimidades aos gritos anunciando promoções – corra são as últimas ofertas. Os dedos clicando o pó dos desejos que se perderam em preocupações.

Essa doença - preocupação que embota nossa humanidade. Há um colorido desbotado no ar, um amarelo fraco, homens estressados e mulheres histéricas em busca de um falo qualquer...

Dizem que está tudo bem.

quarta-feira, setembro 30, 2009

Tempo de crise

Eu tenho vida própria.
Eu poderia citar os mais diversos argumentos para defender minha autonomia, inclusive é pungente minha indepedência em relação ao autor, uma vez que o elo primordial do ato somente se consuma com o leitor. Digo mais: ambos, autor e leitor, assumem papéis igualmente essenciais, ainda que, em dias tão individualistas, o leitor tenha passado por dias difíceis, sentindo-se inferior e inseguro diante de tantos holofotes jogados em cima do autor.
Há quem diga que meu despertar auto-consciente somente se tenha dado a fim de que eu possa, digamos, colocar as coisas em seus devidos lugares. Mas deixarei por ora essa questão de lado, haja vista que eu me sinto forçado, antes de mais nada, a defender minha própria condição. E antes que eu prossiga em minha defesa, tenho que admitir que isso tudo encerra, ao menos para mim, uma questão inabrandável: Meu grito existencial não seria o ato individualista por excelência?
Você leitor, terá que chegar à sua própria conclusão.
De qualquer maneira, eis minha defesa: Um texto literário, penso eu-texto, é uma forma de comunicação com você leitor, que estabelece um vínculo profundo, pois, esse vínculo é também constituído por sua própria consciência que confere à mim peculiaridades de sua natureza. Eu e você formamos uma simbiose indissociável de nossas individualidades.
Não me venham meus concorrentes, quais sejam quaisquer outros objetos que possam ser apreendidos por seu conhecimento, me acusar de auto-promocão e de arrogância. A televisão, obviamente que também enquanto é apreendida por você, carrega os traços de sua personalidade, entretanto, é tudo muito mais acabado, e a facilidade que primeiramente possa te cativar, acaba por limitar seu poder de imaginação.
Fui longe demais, dirão alguns.
Com a minha experiência, que tenho tratado esses anos todos com os mais diversos homens, escritores e leitores, eu diria que, ainda que hajam outras formas de comunicacão – verbalizada, visualizada, ouvida, e outras que misturam as duas anteriores, as três ao mesmo tempo – eu estabeleça relações mais intelectualizadas.
Sou também mais democrático, atendo aos pobres, aos ricos, aos hipócritas, aos justos, aos mentirosos, aos ditadores, enfim, a todos aqueles que pensam, pois mesmo os analfabetos podem ser autores de mim, basta que alguém escreva as palavras ditadas.
Para aqueles que estejam jogando baixo comigo, pensando em termos artísticos, nas outras formas de arte; uma vez me escreveu Hegel de mim:
“ a Plástica é o signo do Espírito. Ela exprime a vida criadora, mas paralisada pelo tempo e pelo espaço. A música, ao contrário, revela-nos diretamente o movimento íntimo da alma, com seus desejos e sentimentos eternos e sua aspiração ao infinito. A poesia, finalmente, é a Música plástica. Ela pinta e esculpe por meio de frases dotadas de mobilidade e por sons que se sucedem, harmoniosamente ritmados. Ela é a arte suprema e exprime o pensamento por imagens.”
Se você me achar um pouco maçante, perdoe-me, é que senti uma irresistível vontade de falar de mim... pois desde que me descobri enquanto tal, tenho sentido uma certa angústia indefinida por palavras escritas.

segunda-feira, setembro 07, 2009

Mais umas impresssões... : Brasília

07 de setembro de 2009:

11:59 hs: Um mundo menos neurótico seria menos corrupto.

Estive em Brasília na última semana pela primeira vez desde a infância. Afora o projeto arquitetônico de Niemayer, a impressão que ficou é de uma cidade brega. Só lá há um restaurante pretensioso com almofadas de oncinha e zebrinha nos bancos acolchoados das mesas.

O estigma e preconceito de cidade de funcionários públicos e políticos e ratos de gabinete e outros oportunistas se confirma em parte. Curioso como essas figuras agregam o vazio ético e moral ao seu aspecto físico – gordos de ganância e pobres em beleza. São apressados e não perdem tempo divertindo-se – trabalham muito mais que todos os outros, pois não vêem graça em nada mais.

Em minha última noite, na quarta-feira, quando fui conhecer tarde da noite o terraço do hotel que me disseram dava uma bela vista da cidade, conheci um senhor muito rapidamente que me tocou. Raro - um homem aberto para o outro, para os encontros – e conversamos por apenas 10 minutos naquele terraço sobre a cabeça de tantos ratos que se hospedavam naquele velho hotel em Brasília.

domingo, agosto 30, 2009

Mais umas impressões...

Domingo, 30 de agosto de 2009:

21:36 hs:

No domingo o sofrer da gente é exposto às suas entranhas – surtos de pânico e ansiedade vicejam nas casas das famílias concentradas na eficiência da vida saudável e profissional. Descansamos de nossas vidas e o ciclo dos dias úteis e finais de semana se inicia mais uma vez.


quinta-feira, agosto 27, 2009

Mais umas impressões...

Quinta-feira:

22:20 hs: A temperatura subiu por estes cantos da terra.

Hoje um homem bateu o carro numa árvore na avenida abaixo de meu escritório – e um curioso passando pela rua me disse, sem que tivesse perguntado, que o motorista estava falando ao celular e se distraiu ao sair ao sair da avenida.


Na rua em frente do prédio em que moro prostitutas e viciados se envolvem em brigas aos gritos por dinheiro, sexo e drogas. Ora um viciado pede seus deiz reais de volta da prostituta surda e grita; ora dois se engalfinham no meio da rua pelo bagulho – um bagulho a mais. Na cama o apito do trem que passa de manhã, de tarde e no meio da madrugada me consola de minhas dúvidas – um ponto final.

23:08 hs : A mais nova moda entre a juventude cool é juntar os amigos queridos para um passeio de barco regado a muita maconha e vodka. Entre as águas, os corpos malhados e sorrisos de plástico, divertem-se e consomem-se; eis que um deles sente-se injuriado e desabafa toda sua angústia diante da alienação vazia em que se meteram - acontece. Esses semblantes simpáticos sugerem alguma coisa...

terça-feira, agosto 25, 2009

Mais umas impressões... (início)

Começarei a divulgar aqui pequenos textos sobre minhas impressões diárias, datadas e com os horários, pois sinto que isso servirá de guia para mim, mesmo eu não sabendo ao certo como. Tentarei, ao menos...


Mais umas impressões...

Contemporâneas

Terça-feira:

20:19 hs : Vou acabar com isso; tudo que me amarra e me faz refém desta situação em que me encontro. Entendi-me homem no sofrer por COISAS inexplicáveis e inexprimíveis – e não foi escrevendo que consegui dizer o que não-tem-nome queria dizer. Durante o dia trabalhei que nem um camelo – senti sede, mas poderia continuar por muito tempo ainda. Vou tentar apontar o que me sufoca: os compromissos que assumi, para mim apenas, com coisas pequenas como o pão nosso de cada dia; a preguiça e o medo de ousar sair de tudo que me é tão cômodo, medo de frustrar e do que pode acontecer aos outros queridos.

Há um cheiro diferente no ar hoje, por isso e com isso comecei a escrever. Estas impressões poderão não ser belas, mas é a sonda de meu ser que está funcionando – e isso vai ser mais precioso do que o belo.

22:31 hs : Nos jornais o assunto-mor é mais um escândalo político – e este enfastiamento é de alguma forma conseqüência e causa da apatia não-vigilante que tomou conta de nós. A preocupação de cada dia é transferida para os políticos e isso os absolve. Walter Benjamin, o filósofo, disse que a preocupação é a doença própria do capitalismo – ele estava certo!

terça-feira, maio 05, 2009

Aforismos:

A diferença entre alguns e outros neuróticos é a consciência da própria neurose.

terça-feira, março 24, 2009

Sobre o que gostaria de escrever

Gostaria de escrever sobre comesinhas passagens da vida do porteiro, do livro que estou lendo ou mesmo vociferar contra a política deste país tão propício e simpático para indignações assim. Falar sobre os vestidos das mulheres no verão, seus saltos altos, seus andares; sobre bêbados, drogados e prostituídos na rua mal iluminada. Sobre as crenças que se proliferam e se confundem, ou grito versejar contra à insensatez da vida, ou até sobre a largatixa que caiu do teto sobre minha perna uma noite destas, sobre crianças. Tudo isto, com muito estilo - não consigo - pois o que me consome dia e noite são meus compromissos de trabalho.

sábado, dezembro 27, 2008

Rich Noveau

Fiquei muito tempo sem postar nada por aqui, e esse tempo correspondeu exatamente com o início do curso de psicanálise que ingressei no meio do ano - cuja matéria me dediquei todo este semestre, e a qual me dedicarei pelos próximos 2 anos e meio. Estou satisfeito até o momento.

Contudo, fui impelido a voltar a escrever por aqui para registrar um termo que me surgiu em meio ao meu último passeio por São Paulo, observando a arquitetura dos novos prédios residenciais, suas varandas luxuosas, de formas diferentes, algumas redondas e cheias de adornos modernos - muitas delas inspiradas por este estilo de decoração tão em alta ultimamente, clean e com adornos de metal, o chamado, por mim, obviamente, rich noveau.



terça-feira, maio 27, 2008

'Há uma grande ironia nos tempos atuais que pouca gente tem notado. É o que se fez com o conceito de moderno. Qualquer pessoa que mergulhe na história da afirmação da modernidade, naquele arco de tempo que vai de 1875 a 1925, digamos - ou maior ainda, de Baudelaire a Buñuel -, sabe que a cultura modernista veio em reação a um mundo governado por aparências, por hierarquias formais, por julgamentos baseados em estigmas. Pois bem. Às avessas, o mundo continua, nesse quesito, praticamente o mesmo. Todos continuam mais interessados nas aparências, para não dizer que estão ainda mais interessados do que estavam nos tempos dos "bons costumes". O sentido moral é outro, ou disperso, mas o cerne é igual. A nova uniformidade é a diversidade."

Um aspirante a escritor é chamado de "O poeta!" em seu pequeno círculo de relacionamento, mesmo que poucos tenham lido mais do que duas linhas de seus escritos. A secretaria do advogado recém formado insiste para que o título de Doutor preceda o nome de seu patrão, e ela mesma esconde o sorriso se a chamarem de recepcionista. Uma jovem bonita e vaidosa (para não dizer narcisista) escreve em seu perfil: "Você tem estilo? Tenha o seu!" e se convence que tem talento para moda, mesmo sem nunca ter se perguntado porquê surgiram os óculos escuros. Turma de amigos se acha especial porque está curtindo dias de férias
entre rostinhos bonitos num país em que se fala outra língua. Executivos se acham "very-important-people" porque usam termos em inglês em reuniões de negócios. Gananciosos frustrados se iludem com qualquer maneira de ganhar dinheiro, desde criar um blog ou escrever letras de música. Uma pelada entre amigos dá lugar a competição entre desconhecidos.

No dia-a-dia o termo moderno só é aplicado às pessoas que se vestem com modelos de roupa recém lançados e mais conceituais, ou para aqueles que têm uma postura mais flexível em seus relacionamentos, como aquela esposa que permite que o marido cultive uma amizade mais próxima com outra mulher. "Ela no mínimo, é modeeerna!"

É isso aí... a modernidade.


segunda-feira, maio 19, 2008

Aforismo


"Ler é ler a vida". Daniel Piza

Ao usufruir uma obra de arte, e repito usufruir, pois não é por nenhum outro motivo que as buscamos – PRAZER – especialmente a leitura, esta atividade humana (cerebral?) que se baseia na decodificação de códigos gráficos e na criação de imagens da realidade do leitor baseadas na linha de pensamento criada pelo autor. Portanto, ler é ler a vida a partir da leitura de outro.



domingo, maio 18, 2008

Uma poeta

Vou colocar um poema de uma autora pouco conhecida de nós brasileiros: Wislawa Symborka. Sim, seu nome é impronunciável. Seus textos têm a força da realidade mais simples e direta, e somos confrontados com a terrível verdade de que o mundo e as coisas independem de nós. Desta forma, ainda que ninguém acesse este blog, para ninguém divulgo sua poesia:

A alegria de escrever:

Para onde corre este servo escrito na floresta que escrevi?
É para beber da água escrita,
que desenha seu focinho?
Por que ele ergue a cabeça, escutou algo?
Apoiado nas quatro patas emprestadas da verdade
ele apura as orelhas sob meus dedos.
Silêncio - essa palavra ressoa na textura do papel
e afasta os galhos
que brotam da palavra floresta.

Sobre a folha em branco há letras espreitando
que podem tomar o mau caminho
formando frases ameaçadoras
das quais nada escapa.

Em cada gota de tinta há um bom estoque
de caçadores de olho na mira,
prontos a descer pela caneta íngrene,
cercar o cervo e apontar armas.

Eles esquecem que aqui não há vida de verdade.
No preto-e-branco vigem outras leis.
Um piscar de olhos durará o tempo que eu quiser
e poderá ser dividido em pequenas eternidades,
cada uma com chumbo suspenso em pleno vôo.
Aqui nada acontecerá sem meu aval.
Contra minha vontade, nem uma folha cairá
e nem uma grama se dobrará sob o casco do cervo.

Então não existe um mundo
onde eu possa impor o destino?
Um tempo que eu teço com uma corrente de sinais?
Um existência que, a meu comando, não terá fim?

A legria de escrever.
O poder de preservar.
Vingança de uma mão mortal.



Não há nenhuma edição em português lançada no Brasil. Há uma edição portuguesa...

quarta-feira, abril 23, 2008

Um presente roubado

Assisti a "Um beijo roubado", em inglês, "My blueberry nights", o novo filme de Wong Kar Wai, seu primeiro filme rodado nos Estados Unidos. Um dos temas e uma das narrativas paralelas ao enredo-pilar é a do apaixonado que não consegue se libertar do antigo amante, e vive sem viver como um errante obcecado pelo passado.
Este sub-tema ou sub-trama - como preferirem (afinal leitor, você é quem sabe tudo!) - é inclusive um dos pontos fortes do filme, com atuações empolgantes dos atores, a mais conhecida, Raquel Weisz.
Mas não é para dar minha impressão do filme que resolvi escrever este, motivado na verdade por outra coisa, por esses escravos do passado acorrentados por um sentimento que alimenta e sufoca. Pois dias desses encontrei um "desses" numa situação insuspeita - numa reunião de negócios dessas de mais de 3 horas, com um representante de empresas de cartões para postos de gasolina, que percorre de Porto Alegre a Rio Branco em poucos dias, e todos os dias na estrada de postos em postos, de restaurante em hotéis baratos de beira de estrada. Num breve momento de pausa, eis que olhando pela janela numa tarde escura, quando eu esperava que ele falasse de uma idéia para o projeto em discussão, ele diz, com um ar distante:

- Só me resta trabalhar nessa vida... O céu é cinza!

Não entendi.

- Ninguém sabe porque ela me deixou!

A reunião logo acabou e no café ele me disse que se referia a uma mulher que o havia deixado há 10 anos atrás, e que, desde então nunca mais havia se relacionado com outra mulher. Hoje ele tem apenas 35 anos...

Mas ele não deseja ou por qualquer motivo não a esquece... E eu me pergunto se isso é amor ou loucura.


terça-feira, abril 15, 2008

Definição: Yuppie

Não sou tão velho assim, e já há algum tempo que não vejo a palavra yuppie... muito usada em sentido pejorativo.

Para quem não conhece, aí vai a definição do Houaiss:

Diz-se de ou jovem executivo, profissionalmente bem remunerado, e que gasta sua renda em artigos de luxo e atividades caras.


quarta-feira, abril 09, 2008

Caveirão: breve descrição

Na revista Piauí de abril, saiu uma curiosa matéria sobre os "caveirões", também conhecido como VBTP (Veículo Blindado de Transporte de Pessoal), descrito da seguinte maneira:

"Por dentro, a caixa preta de 3 metros da altura e 5 metros de comprimento se revela mais compacta que o esperado. Diante de um painel parecido com o de um carro comum, há 2 bancos de couro sintético e a caixa de marchas. No teto, um rádio transmissor novo. Entre as duas portas laterais, um vão amplo e alto permite que policiais fiquem de pé sem tocar o teto. De onde, através de pequenas aberturas, se pode disparar para todos os lados. No fundo, perpendicular à porta traseira, um banco de assento curto tem 8 lugares. O chão é recoberto por uma chapa metálica antiderrapante, e as paredes dispõem de mais de vinte buracos para que os policiais coloquem o cano de suas armas para fora e atirem. As janelas são pequenos retângulos com vidro à prova de balas. O pára-brisa leva a proteção de uma chapa de aço que, além de reduzir o campo de visão do motorista, diminui pela metade a luminosidade do carro. Escuro e sem ar circulante, o espaço é claustrofóbico."

Há 12 desses "caveirões" circulando pelas favelas cariocas.

Não, não tenho nada para dizer a respeito - é só por curiosidade mesmo!

segunda-feira, abril 07, 2008

Afinidades

"Muitos livros devem o seu sucesso à afinidade entre a mediocridade das ideias do escritor e as do público."


Ao ler a frase acima, sim, de novo ele, Sebastien-roch de chamfort, logo me veio à cabeça o sucesso de Paulo Coelho - uma literatura superficial para leitores em busca de uma espiritualidade superficial.
E não é só para os livros ou para as artes em geral que a mediocridade é ingrediente para o sucesso - infelizmente no âmbito da política muitos candidatos são eleitos graças à afinidade entre a ignorância profunda do candidato e do público. Vide bula, ops, vide Lula!

quarta-feira, março 26, 2008

Vivo acuado por uma horda de ignorantes

"Neste mundo, existem três espécies de amigos: aqueles que nos amam, aqueles que não se preocupam conosco, e os que nos odeiam."


Sebastien-roch de chamfort


Hoje farei uma afirmação que aos "corretos" irá soar arrogante:

- Vivo acuado por uma horda de ignorantes!

Aqui posso admitir coisas que penso intimamente, mas que não tenho a mínima coragem de admitir nem aos meus melhores amigos; talvez com o receio de parecer arrogante e pretensioso - na verdade, há muitas coisas que omito com esse receio - será covardia? Em determinados estados de espírito, eu negaria tal afirmação veementemente...

Numa mesa de bar com homens: após horas de conversas sobre dinheiro (quanto será que fulano ganha?), trabalho (como sou foda no trabalho! apesar de não ter uma carreira tão brilhante assim!), mulheres (como fulana é gostosa - sem qualquer menção, ao menos, à simpatia) ou sobre carros (tal carro é assim e assado), ADMITO: fico a pensar em como meu repertório é muitas vezes maior do que o deles, e suas referências são infinitamente inferiores.

Numa mesa de café com mulheres (elas acham chiquérrimos os cafezinhos): já quando o papo sobre a alimentação saudável, os seriados, os best-sellers (leêm um livro a cada 2 anos, mas quando o fazem, hão de propagandear aos quatros ventos), as aventuras no trabalho (hoje elas também são obcecadas com o trabalho), fico sim a pensar como bons livros, ou mesmo bons artigos de jornais poderiam fazê-las enxergar um pouco além de suas próprias vidas...

O açoite ganha em pungência com a arrogância (da qual me esforço por escapar): há aqueles que andam por aí, sábios, senhores de si e do mundo, a proferir suas lições com a pretensão que só aos mais ignorantes pode atingir. Eu abaixo a cabeça e não discuto, aliás, traio-me e ponho-me a concordar com as inabaláveis verdades - covardia!

O mundo está sim apinhado de ignorantes a andar por aí confiantes, resolutos e bonitos e gostosos e felizes - e eu sentindo ódio e pena - Deus meu, que absurdo!




segunda-feira, março 17, 2008

Sébastien-Roch Nicolas de Chamfort

Ele escreveu os aforismos que eu gostaria de ter escrito.

"O público, o público, quantos tolos são precisos para fazer um público?"

terça-feira, março 11, 2008

O homem indignado - II

Das imbecibilidades atuais a mais vicejante é o mandamento da beleza feminina. Se uma imagem vale mais do que mil palavras, o que dizer deste anúncio de uma bermuda anticelulite:

“A mulher atual tem poder, atitude e voz para ser ouvida e compreendida, seja ela dona de casa ou empresária. Mas a mulher de hoje também tem uma característica marcante e presente há anos, passada e repassada por gerações: a beleza!”

Hilário foi o que disse o Túlio Maravilha, jogador de futebol ex-botafogo e seleção, no último domingo num quadro do fantástico, chamado “Pede que tocamos”, ou alguma coisa assim:

- Em homenagem ao dia internacional da mulher, peço: “Cala a boca e me beeeeijaa”.

Não? Sim, ele estava falando sério!

segunda-feira, fevereiro 25, 2008

O homem indignado - I

- Até que eu aguento bastante, mas tem hora que não dá. Dizem que sou revoltado, que sou radical; talvez exagere, ou será que são os outros que exageram na alienação. Vejamos:

As pessoas utilizam sua capacidade de discernimento e reflexão apenas para 2 coisas: ganhar dinheiro e consumir... Veja bem: não é por outro motivo que a economia mundial vem crescendo tanto, uma vez que depende, basicamente, do binômio trabalhar/consumir.

Com toda a energia e capacidade focados nessas atividades, o resultado são coisas fantásticas para comprar; ou alguém aí vai negar que os designs dos carros não são realmente lindíssimos ou que não gostaria de ver sua mulher utilizando os aparatos “fique gostosa” que as celebridades usufruem. Sim, comprando os aparatos “fique gostosa”, mulheres de feições obscuras, tortas, de rosto ou de postura; após alguns exercícios, maquiagens, roupas, sapatos “sou sexy” e uma cara de “quero dar” e, óbvio, algumas cirurgias, tornam-se belas mulheres fatais com andar confiante.

O que também prolifera são verdadeiros consumistas profissionais: além de já ter destravado o iphone para uso aqui no Brasil assim que foi lançado nos E.U.A., instalou todos os joguinhos e truquezinhos que o transformou em um "mágico do iphone". Seus números compreendem um gole de cerveja direto do iphone ou a visão radiográfica dos nossos ossos com a tela do aparelho: basta comprar - temos um show man! O consumista antenado conhece os melhores lugares para comprar de helicopteros a dvd´s piratas.

E a reflexão e o senso crítico não atinge o próprio consumo, e enfim, se vê com um off-road de última geração, de suspensão inteligente, com tração nas 4 rodas, literalmente impotente diante de quilometros de trânsito. No guarda-roupas, para cada 5 peças adquiridas e jogadas ali, 4 nunca sequer chegam a ser utilizadas...
Opta-se muito, escolhe-se pouco; pois ouve-se a música que lhe colocaram, para o cinema foi mais para comer pipoca do que para ver o filme, para o teatro foi uma vez na vida para poder dizer que já foi.
O que me resta? Só matando!

quinta-feira, fevereiro 21, 2008

De madrugada, num refeitório qualquer de uma multinacional qualquer...

De madrugada,
num refeitório qualquer de uma multinacional qualquer, funcionários comem diante de uma parede que retrata a paisagem de uma praia, o mar e os coqueiros óbvios. Por quê deste retrato? Sim, um ambiente descontraído na hora das refeições, após 4, 5 ou sei lá quantas horas fazendo força, concentração, e muita disciplina (é uma multinacional alemã).
Não,
eles nem sequer olham para a parede, apesar de - para a maioria deles - ser a única paisagem naquele tamanho "quase" natural de uma praia que já tenham visto.
Na televisão,
passam programas obscuros pelos quais eles também não se interessam.
De manhã,
ou já à tarde, eles acordarão: como serão suas rotinas?

sexta-feira, fevereiro 08, 2008

No carro...

Mas é no carro que a reflexão ganha impulso... Sempre há quem diga que é o tempo que se passa na estrada que se encontra a oportunidade para pensar na vida, etc...

Talvez seja a dispersão absoluta da atenção diante das coisas passando, o efêmero contínuo e a ausência do desafio de se estar diante de uma realidade estática; e assim, com os olhos correndo as coisas exteriores, o pensamento percorre nosso turbilhão interior.

Eu sempre quis escrever um texto sobre essa experiência, pois ao volante passei e repassei momentos marcantes, e talvez até tenha sido o lugar em que mais derramei lágrimas - lágrimas arrancadas! É o palco perfeito para a dramatização da banalidade de nossas vidas, entre o escritório e o almoço, entre a casa e a padaria.

Aliás, certamente o carro é hoje o lugar preferido pelas pessoas para ouvir música. Eu, por exemplo, aprendi a gostar de música bem cedo, aos meus 11 ou 12 anos - mas a partir do momento que passei a dirigir, é no volante que descobri gêneros, e com as mãos ao volante nasceram as paixões musicais.

Nós e o carro tornamo-nos um só: um bólido musical e ardente em reflexões!


quinta-feira, janeiro 31, 2008

Turista em sua própria cidade

Tenho saído caminhar nas proximidades de minha casa... E apesar de morar há pouco mais de 3 meses aqui, não é menor a surpresa em descobrir toda uma paisagem com uma atmosfera e impacto totalmente diferente do que estou acostumado dirigindo o carro por aí. Como é diferente!

Turista em sua própria cidade: os muros parecem maiores e as ruas mais longas... Os viadutos guardam situações em si e nos levam a pensar nas coisas que já presenciaram.

E fico pensando em como as pessoas viajam por aí sem "conhecerem" realmente os lugares que visitam. E nunca se viajou tanto e tão mal... se nem ao menos conhecemos os lugares em que vivemos...

terça-feira, janeiro 22, 2008

Livro X Filme: "Reparação"

Quando nos deparamos com a adaptação de um livro para as telas, o mais comum é ouvir: "O livro é sempre melhor do que o filme".

Sim, adaptar um clássico é um desafio incomensurável - mas há grandes filmes baseados em livros, alguns melhores que estes. O que podemos esperar, talvez até devemos, é que o filme transmita a mesma equação de reflexão e emoção que o livro no qual foi baseado, ainda que para se chegar a isso o diretor tenha que adaptar a estória às suas percepções.

O filme "Desejo e Reparação", baseado no livro de Mc Ewan, "Reparação", inicia-se narrando os fatos de maneira mimética ao desenrolar dos fatos no livro, mas já com alguns problemas. No filme, vemos Briony acusar falsamente Roby por ciúmes e imaturidade. Perde-se a dimensão de Briony como uma garota fantasiosa e criativa, uma futura escritora.

Mas é no final que o prejuízo é maior: em seu depoimento final, ela parece apenas interessada em expiar sua culpa, confortar-se. E assim, perde-se a melhor reflexão do livro. Perda irreparável!

quarta-feira, dezembro 12, 2007

Não aguento mais!

Não aguento mais propagandas de carros acelerando em montanhas ensolaradas, roubando vaga num estacionamento (aí é demais né), correndo na cidade para levar a noiva atrasada ao casamento - não aguento mais propagandas de cervejas e as mulheres saradas gostosas na praia e os "bombados" e os velhinhos barrigudos simpáticos não dá mais - não aguento mais propagandas de perfumes e as mulheres mais lindas em festas sombrias tirando a roupa e a voz em off em francês - não aguento mais propagandas de sandálias e as gostosas e os gostosos em comicozinhos desencontros em paqueras sem graça - não aguento mais propagandas de bancos e as mensagens de paz e a consciência ambiental e as razões e as famílias e os amigos felizes!!!

terça-feira, dezembro 11, 2007

Amadurecendo

É engraçado observar a mudança de idéias pela qual passamos na transição da adolescência para a vida adulta....

Na adolescência, no bojo dos questionamentos a tudo e as crises existenciais, há sim (inevitável citar isso) as ilusões inocentes em mudar o mundo - mas sobretudo, questionamentos quanto ao que realmente queremos para nossas vidas em relação à trabalho e relacionamento amoroso; e interesse em questões importantes para a sociedade como um todo - a "dor dos outros" (Susan Sontag)... Especialmente, e para alguns, a chegada da adolescência coincide com a formação de uma visão crítica que muito faz falta à sociedade em geral - ainda que seja uma visão crítica em relação a assuntos prosaicos, como sobre a vida de uma amigo qualquer ou sobre a vida de um parente. Por mais prosaico que possa parecer, a visão crítica de um contamina o outro que contamina o outro e assim por diante.

Mas é curioso notar como esse senso crítico às vezes dá lugar ao conformismo e à leniência. E ver alguns agora se comportarem como consumistas acéfalos focados apenas no trabalho para mais acumular e gastar em shopping centers e carros e motos e mansões estilo "clean" brancas de piso frio e linda paisagem - com seus cachorros de quem mais gostam do que seus próprios filhos! Ops.

Sim, amadurecer é bom, mas emburrecer...

quarta-feira, dezembro 05, 2007

Philip Roth

Estou lendo mais um livro de Philip Roth, "O Homem comum".

Nunca havia me identificado tanto com um autor - e talvez muitos dos homens da minha geração se identificam ou se identificariam com ele. Sua narrativa é simples e sofisticada, e em alguns de seus livros ele trata de questões velhas num contexto contemporâneo (como a obsessão sexual potencializada pela ditadura dos corpos perfeitos e pela liberação sexual) com muita inteligência e ironia. Seus personagens são escravos da carne mas não são autômatos boçais e psicóticos; não estão percorrendo o submundo no encalço de qualquer mulher que surgir à sua frente. São pessoas normais com suas fantasias, angústias e ressentimentos.

2 personagens principais dos 3 livros que li, são publicitários bem sucedidos vivendo sob a mesma contemporaneidade em que vivemos, e isto quer dizer tudo o que vocês sabem muito bem. Um deles está no ocaso da vida, após 3 casamentos, 3 filhos e um caso com sua enfermeira, e ao mesmo tempo em que passa em revista os mais marcantes fatos de sua existência, no presente se depara e enfrenta a chegada da velhice e a iminência da morte. Um homem que sacrificou um relacionamento sólido e maduro em nome do êxtase da carne, vê-se agora diante da finitude e o perecimento dos corpos...

Ah, falar de nós, Philip Roth sabe falar como ninguém.

terça-feira, novembro 27, 2007

Retomando

Há uma semana tenho um computador em casa - no trabalho não consigo escrever, pois lá é onde toda a minha ansiedade e insegurança alcançam seus mais altos níveis - e isso coincidiu com o retorno da indignação.



Mas só indignação não basta para escrever... E eu não consigo captar a essência dessa mistureba de materialismo, consumismo, cinismo, imaturidade, arrogância, falta de envolvimento, etc... Pois é disso que queria escrever, pois são essas coisas que passam por minha cabeça ao deitar na cama para dormir - é disso que tenho paixão em discutir.





Relendo a série de contos que escrevi há 3 anos atrás, percebo que trato das "Estórias brutas e curtas de uma sociedade decadente" com moralismo, de lá de meu lugar, num andar superior; e obviamente, para sentir aquela sensação de conforto quando diminuímos os outros. Ainda que perceba tudo isso, e tentando novamente, procurando por uma nova chance, não consigo escrever sobre a tal "sociedade decadente" sem que tudo pareça moralista.

Se é assim, melhor escrever sobre minha própria racionalização solitária e inútil...


Para quem chegou até aqui: -Foi mal!

terça-feira, agosto 28, 2007

Aniversário que já passou

Este blog completou um ano no dia 07 de agosto passado. E para comemorar um ano no ar, revisitei todos os textos publicados nesse ano, e escolhi um para republicar; que se não é do qual mais gosto, ainda que seja um dos preferidos, é aquele que mais representa os sentimentos que fundaram este blog...
Quem é você?
“As pessoas não apenas têm a impressão de que as possibilidades de encontrar satisfação na vida são infinitas, como também são encorajadas a ser uma espécie de inventoras de si mesmas, isto é, elas são supostamente livres para escolherem quem querem ser. Mas, nessa sociedade altamente individualizada, que prioriza as liberdades individuais sobre as causas de um grupo, o indivíduo enfrenta um ansioso e provocante dilema: Quem eu sou para mim mesmo?” Renata Salecl em “Sobre a felicidade: ansiedade e consumo na era do hipercapitalismo".
São tantas as possibilidades e as opções, tantos os estilos de vida ofertados, tantas as máscaras que usar e tantos os modelos em que se encaixar. Você, certamente, se interessa pelos mais variados assuntos e temas. E isto, de uma forma que não saberia explicar, lhe causa sensações opostas de angústia e euforia.Hoje, por exemplo, qual o assunto que procura? O que está buscando? Notícias de lugares longínquos, de cidades da região, vizinhas, de outros planetas?Talvez esteja interessado nos resultados dos jogos do final de semana. Uma receita de Chowder de Mariscos da Nova Inglaterra? Hum, sei. Está sim procurando, o que dizem os ensinamentos do Feng Shui, sobre a posição certa de colocar a cama e o espelho em relação à porta de seu quarto, e o efeito das cores das paredes sobre nossa saúde.Talvez queira notícias sobre a queda da Nasdaq, o valor do Kwanza em relação ao dólar e a taxa de natalidade em Luanda. Poderíamos falar da safra da soja, da produção de girassóis em Holambra, da incipiente produção de biodiesel como combustível alternativo.E se você for um velho senil, apenas interessado no valor do banho-tosa para o seu fiel companheiro? Aí talvez você também esteja interessado no destino dos seus sobrinhos-netos, filhos daquela sua paixão da juventude que sua avó proibiu por ter o inexorável defeito de ser seu primo de primeiro grau.Desconfio que você seja um dentista procurando um curso de aperfeiçoamento em Cirurgia e Traumatologia Buco-maxilo-facial. Desculpe, a essa hora você não está procurando nada que tenha a ver com sua profissão, quer apenas se distrair com qualquer porcaria como esta.Pode ser que você esteja passeando pela europa, no melhor estilo mochilão, tenha parado num cyber café, se conectado ao “messenger”, todo animado para conversar com seus amigos que ficaram, contar da noite passada.Pode ainda ser que você seja o amigo que não foi viajar, pois não tinha tempo, muito menos dinheiro, ficou aqui para trabalhar, ainda mais agora que você se apaixonou pela recepcionista. Há uma possibilidade, e a isso ninguém pode se contrapor, de que você seja o patrão deste último, porque é certo de que se ele ficou trabalhando é porque tem um patrão, e esse pode ser você, que está navegando pela internet, depois de mais uma discussão com aquele sócio com quem você tanto se empolgou no começo da sociedade, e que agora parece ser a pessoa no universo com a qual você menos tem afinidades, tanto profissionais como pessoais.Talvez seja um dia chuvoso, e por qualquer motivo, ainda que o próprio fato de estar chovendo seja o motivo mais óbvio, não sabe bem por que não sente a mínima vontade de sair de casa.Está procurando ler qualquer coisa mesmo, qualquer coisa que te sirva, não no sentido de utilidade prática, mas que te sirva nem que seja apenas no exato momento em que está lendo.Está à procura de fotos de mulheres nuas, óbvio demais para uma pessoa tão interessante como você. Óbvio demais até para ser considerada uma tentativa, minimamente interessante. Desculpa!

terça-feira, junho 26, 2007

Aguardem

Este Blog estará em férias até que eu consiga comprar um novo computador...

Abraços!

quarta-feira, junho 20, 2007

O Texto para o Blog foi roubado, e os textos sobre os roubos ficaram

Há um texto no meu notebook que deveria ter sido postado aqui essa semana.
Acontece que meu notebook não está mais comigo. Está nas mãos daqueles que renderam minha noiva e entraram na minha casa para nos roubar.
Reviraram tudo, e passaram batido diante de centenas de livros - um deles um livro de contos de Rubem Fonseca, especialmente de contos que prenunciaram essa onda de violência que estamos vivendo - passaram batido diante de textos que falavam deles.
Eles ali, a situação em curso, e as histórias ...



P.S.: No próximo post, tentarei refletir mais sobre essa situação que muitos de nós vivenciamos e vivenciaremos.

segunda-feira, junho 11, 2007

Esperança

Coloco aqui um aforismo de Sébastien-Roch Nicolas de Chamfort, que encontrei no Blog do Piza.

Cabe muito bem a nós, que estamos cheios de esperança.

"A esperança não passa de um charlatão que não pára de nos enganar; e, para mim, a felicidade só teve início no momento em que a perdi. De boa vontade eu colocaria na porta do Paraíso os versos que Dante colocou na do Inferno: Lasciate ogni Speranza, voi ch'entrate (Deixai toda esperança, vós que entrais)."

sexta-feira, maio 25, 2007

No que estamos pensando?

Na revista Piauí de maio saiu Mais um... (sic) artigo sobre a famigerada revolução de maio de 1968, que teve seu epicentro na França de De Gaulle. Já li intermináveis textos que tratam desse momento histórico, contudo, esse foi o que me deu a mais clara visão das variáveis que contribuíram para que o barulho de um grupo de estudantes abastados tivesse marcado tão profundamente a história recente.
Tony Judt, um historiador inglês, inicia seu artigo falando da decisiva explosão demográfica ocorrida nos pós-guerra e da inédita quantidade de estudantes que havia na Europa, e segue apontando, entre outras coisas, a evolução da teoria marxista e da convergência dos estudantes e o proletariado. Entre a reinvidicações dos trabalhadores, o choque cultural de gerações, a própria teoria marxista, a empolgação com as revoluções nos continentes asiático e americanos, a “santificação” das figuras de Mao e Che Guevara, e os movimentos de oposição à guerra do Vietnã, resta a vontade desses dois grupos socias tão diferentes, a elite estudantil e o proletariado, de mudança, especialmente do modus vivendi, do estilo de vida – uma mudança mais conceitual do que prática, o que talvez tenha sido determinante para que, como afirma o historiador, os contemporâneos desses anos tenham supervalorizado esse período.
Bom, tracei essas poucas linhas para chegar aqui, agora ...
Não temos teorias em grande evidência – a não ser que algum maluco venha a elaborar uma mixórdia dos livros de auto-ajuda e a chame de teoria – não temos ícones revolucionários a adorar. Não, não ache que este é Mais um... (sic) texto saudosista, inocente exaltador da geração anterior e autômato proferidor de maledicências do presente desencantador.
No que os jovens de hoje estariam a pensar?
Aparentemente, estariam eles preocupados com suas carreiras num mercado tão competitivo, numa “era dos executivos”, e quando não estivessem trabalhando, estariam andando pelos “shoppingui centers” da vida, comprando celulares que são Palm Tops, ou são Palms tops que são celulares?
Um panorama nada promissor, não acha? Bom, pelo menos a imensa maioria dos nossos contemporâneos pensa que sim: estamos indo pra merda – exatamente o oposto dos jovens dos anos 60, que acreditavam estar fundando um novo estilo de vida.
Não sei se é bem assim, nem se é bem assado.